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OURO PRETO

Vila Rica – Gênese e evolução do espaço urbano

Quando o primeiro ouro foi descoberto, em fins do século XVII, o território não era assim tão desconhecido como se imagina ― por aqui passavam grandes trilhas indígenas, que bandeirantes paulistas percorriam, já com uma certa frequência, provavelmente em expedições preadoras de índios. Antonil relata que um mulato encontrou alguns grãos cor de aço, quando bebia água num riacho. Somente ao voltar para São Paulo é que se reconheceu o achado como sendo do mais puro ouro. Daí se infere que não se tratava de alguém que estivesse procurando o metal e que certamente não se encontrava sozinho num ponto tão distante e deserto como acontecia ser este território. Da mesma forma, o fato de não ter referências exatas do local onde encontrara o tal “ouro preto” aponta para a pouca importância que dera, naquela ocasião, aos grãos encontrados. O cronista não explica quando se teria dado esta primeira descoberta, que bem pode ter acontecido dois ou três anos antes da data originalmente considerada como o da descoberta, que é de 1698.

Durante as pesquisas empreendidas para o Memorial, encontrei um documento que havia sido indicado por Diogo de Vasconcellos em sua História Antiga de Minas Gerais e que não forneceu as suas referências arquivísticas, suscitando dúvidas sobre sua existência. Trata-se da carta patente de guarda mor de Antônio Dias de Oliveira, concedida pelo governador Antônio Alburquerque Coelho de Carvalho, em 1712, apresentado em fac-símile na exposição, com a sua transcrição crítica. Nesta carta, o governador dá como razão para o privilégio concedido a descoberta do Ouro Preto (bairro do Pilar), Ribeiros (?), Antônio Dias e Padre Faria, o que significa que descobriu todo o âmbito da cidade e não apenas o bairro Antônio Dias. O governador sugere também que teria sido “... há mais de doze annos nesta (...)”. Escrita em 12 de janeiro de 1711, a data dos descobrimentos retrocede para o ano de 1698, confirmando a tradição.

Ant.º Albuq. Coelho de Carv.º - Faço saber aos que esta minha carta pa//tente virem q. havendo [...] aos grandes serviços q. Ant.º Dias de Oliveira tem feito// a S. Mag.de q. Ds. g.de nestas Minas do ouro em muitos descubrimentos como fora os do ouro// Preto, Ribeiros, Ant.º Dias, P.e Faria, aonde actualm.e se esta lavrando muito//ouro, pela grande intelligencia e conhecimento, q. tem e zelo com // q. se há empregado em semelhantes diligencias há mais de doze annos nesta q. sempre a sua custa sem ajuda// algua de faz.da, gastando muito da sua, e occasionando grandes lucros á de sua// Mag.de assim em quintos de ouro, como das dattas q. lhe pertencerão o fez muito// conveniente se amime com as honras q. S. Mag.de custuma fazer aos vassallos//que bem o servem p.ª q. continue em dilig.cias de tantas conseqüências e utilid.des // ao bem comum e haja maiores descubrim.os hey por bem nomear, e elleger// como por esta o faço// ao d.º Ant.º Dias de Oliv.ª por Cap.m e guardamor de todos os descubrim.os q. fizer daqui em diante (...)”.

Os povoadores originais, por força da carta régia de 15 de agosto de 16031, instalaram-se distantes uns dos outros por cerca de meia légua, onde estabeleceram suas lavras e moradias, embriões dos arraiais que logo surgiriam:

[Artigo 45.°] E porque nestas minas menores se evitem os inconvenientes de os mineiros dizerem cada hora que fazem novos descobrimentos: hei por bem, e mando que feito um, não se admita outro de nenhuma parte da quebrada, rio ou campo onde se descobrir dentro de meia légua”.

Assim, Antônio Dias de Oliveira e o padre João Faria de Fialho receberam suas datas às margens dos ribeirões que descem do Morro do Ouro Preto2. Os irmãos Tomás e João Lopes de Camargo se instalaram nas vertentes do Morro das Lajes, local que ficou conhecido como arraial dos Paulistas, e que foi ocupado pelo emboaba e Mestre de Campo Pascoal da Silva Guimarães Félix Mendonça de Gusmão3recebeu sua área no córrego do Passa-Dez, próximo ao bairro das Cabeças e a lavra de Francisco da Silva Bueno, no córrego abaixo do Campo Grande, chamando-se então Ouro Bueno. Assim o caráter polinuclear do povoamento inicial deriva diretamente de uma ordenação mineral, o que contradiz a dita espontaneidade no surgimento destes núcleos.

Pascoal da Silva Guimarães, segundo Diogo de Vasconcelos, era mascate nas Minas e enriqueceu no Rio das Velhas, instalando-se na serra do Ouro Preto após 1704, nas lavras que foram dos Camargos (arraial dos Paulistas) e foi mais feliz que estes, encontrando o mais rico filão de ouro da região. Segundo o mesmo autor, os Camargos tentaram reaver as lavra, sem sucesso. A questão demorou a ser resolvida e somente em 1711, após o final do conflito, é que Guimarães teria recebido do governador uma carta de sesmaria (Vasconcelos, 1977, p. 241), confirmando a posse do morro do Itapanhoacanga4, e pondo fim à contenda. Neste caso, a verdadeira ou pretendida injustiça sofrida pelos Camargos se ajuntaria às queixas dos paulistas contra os reinóis, somando mais um pretexto para a Guerra dos Emboabas.

Em função da maior ou menor pujança das lavras sobre as quais se assentaram os primeiros aglomerados populacionais, os arraiais resultantes tiveram seu desenvolvimento favorecido em maior ou menor grau. Os dois principais, Antônio Dias e Fundo do Ouro Preto, logo se diferenciaram dos outros, por sua maior população e poderio econômico, alcançando ambos o direito de possuir Igreja Matriz, fato inusitado para a época. Assim os arraiais do nascente― Paulistas, Taquaral, Padre Faria, Itapanhuacanga (Piedade, Santana, São João e Morro da Queimada), Ouro Bueno (Morro da Queimada) e Alto da Cruz ― se tornaram freguesias da Matriz de Nossa Senhora do Antônio Dias. Os arraiais do poente ― Caquende (Rosário), Passadez de Cima (Cabeças), e Passadez de Baixo (Passadez) ― se tornaram freguesias da Matriz de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. A criação da Vila, em 1711, unificou todos os arraiais sob o mesmo termo.5

Do ponto de vista do traçado, Vila Rica consistia em uma única rua6, que principiava na principal entrada da cidade (Passadez). Daí subia-se a ladeira até o Passadez de cima, descendo novamente até o Caquende (Rosário). Entrava-se pela Ponte Seca, seguindo até o largo da Matriz, que tinha sua porta principal de frente para a ladeira do Pilar, a antiga Rua Direita do Ouro Preto. Subia-se esta ladeira, continuando pela ladeirinha íngreme até o alto do Morro de Santa Quitéria, onde está hoje a praça Tiradentes. Descia-se a rua Direita do Antônio Dias até a Matriz e a ponte do Antônio Dias. Subia-se novamente a ladeira do Virasaia, pelo antigo caminho mais íngreme até o Alto da Cruz, descendo-se o Padre Faria. Cruzando a pequena ponte, subia-se pela rua da Fumaça até o Taquaral. Nos primeiros tempos, a saída para o Ribeirão do Carmo (Mariana), se fazia através do Morro de São Sebastião, pelo alto da serra, até atingir o morro de Matacavalos, em Mariana. Na década de 1720, o conde de Assumar mandou abrir o novo traçado da estrada, que ainda hoje é o percurso exato da rodovia que liga as duas idades.

À medida que a vila crescia, novas ruas, becos e travessas foram surgindo ao longo deste caminho tronco. As primeiras ruas construídas pela Câmara foram a Rua Nova (Henri Gorceix) e a nova rua Direita, esta última como alternativa ao trajeto íngreme da ladeira de Santa Quitéria, em 1712. Por volta de 1732, os membros da Irmandade dos Homens Pretos de Nossa Senhora do Rosário do Ouro Preto construíram a rua Nova do Sacramento (Rua S. José), para a passagem da procissão do Triunfo Eucarístico. Em meados de 1780, a praça foi terraplanada e remodelada para a construção da nova Casa da Câmara e Cadeia e mudanças mais profundas no traçado da cidade só foram levadas a cabo no século XIX, com a abertura da rua das Flores (1804), urbanização da Praça da Estação, abertura da Rua Municipal desde a esquina do largo da Matriz do Pilar até a entrada do Beco dos Bois, abertura dos vários Caminhos Novos, rua Diogo de Vasconcelos, Avenida Vitorino Dia, Travessa do Teatro até a Igreja de S, Francisco de Assis, rua do Gibu, etc. A primeira metade do século XX não trouxe quaisquer alterações na planta da cidade. No final da década de 1950 abriu-se a rodovia até Cachoeira, construindo-se a rua Padre Rolim, aterrando-se vários desfiladeiros.

Finalmente, a instalação de grandes mineradoras e de uma grande indústria siderúrgica, no Município, atraiu uma parcela significativa de famílias de outros municípios, ocasionando uma pressão sobre o território urbano e ocasionando a ocupação dos espaços até então vazios, no centro histórico, tendo como exemplo, a rua das Flores. O êxodo rural e novas levas de trabalhadores, associados à extinção do regime de sesmarias, em 1979, resultaram na ocupação indiscriminada de encostas e sítios arqueológicos, destruindo irremediavelmente o campos de ruínas do famoso Morro da Queimada.

Kátia Maria Nunes Campos

20 de Junho 2004

1 Documento transcrito na íntegra por Eschwege em seu Pluto Brasiliensis, v. 1, p. 83-92.

2 Diogo de Vasconcelos localiza a lavra de Antônio Dias às margens do famoso Tripuí, que não seria outro senão o atual ribeirão do Funil, que segue em direção a Passagem, tornando-se então o ribeirão do Carmo de Mariana. Isto indica que a lavra do bandeirante ocupava 60 + 30 braças (198 m) de suas margens, sugerindo que provavelmente se situava próxima à confluência do riacho dito de Henrique Lopes e o Funil, na região da Barra. (Vasconcelos, 1977).

3 Félix Gusmão se tornou vereador na 1ª. Legislatura do recém criado Senado da Câmara de Vila Rica, em 1711 (Livro de Termos de Acórdãos da CMOP, 1711-1714).

4 Este toponímico é grafado de duas maneiras diferentes: Itapanhoacanga e Tapanhoacanga, nos livros de Acórdãos de 1711-1714 e 1715-1718, da Câmara Municipal de Ouro Preto.

5 A palavra termo tinha, no século XVIII, o mesmo significado e abrangência do moderno conceito de Município.

6 Veja o glossário de ruas, no final deste artigo.